Semana pela Igualdade de Mértola (18-26 Novembro 2011)

Cidade moura, linda e encantada. Entronada por um castelo, por onde discorrem ruelas apertadas repletas de casinhas caiadas coladinhas umas às outras. Se formos descendo as ladeiras e escadinhas, deparamo-nos com o Guadiana, lindo e guarnecido com alguns rochedos no seu leito, que nos fazem lembrar ilhéus perdidos algures, numa terra assomada pela tranquilidade.

Esta 2ª semana do projecto foi mais intensa em termos de trabalho, mas correu melhor e foi mais produtiva do que a de Aljustrel. Pelo menos com as turmas das escolas. Os/as professores/as mostraram-se interessados/as e acompanharam sempre as turmas, ouvindo-nos vezes sem conta. Não demonstraram aborrecimento, pelo menos colaboraram sempre no sentido de controlar algum comportamento mais despropositado e ajudar a concentrar os/as alunos/as nas sessões. Quanto às impressões das sessões? Da nossa parte, Joana, Magda e Manú correram muito bem, acho que estivemos bem coordenadas, apresentámos conteúdos bastante completos articulados com dinâmicas variadas.


A realidade social é que desanima sempre. Denotam-se sempre casos e casos de violência no namoro ou doméstica. Destaco a presença de um jovem: um cabo-verdiano, inteligente, sensível e muito educado, que sobressaía dos demais nos trabalhos de grupo, pela sua maturidade e pensamento bem estruturado em termos de género. As suas respostas surpreenderam-nos e podiam ser usadas como modelo. Quanto a estes/as alunos/as da escola profissional reparei que os/as originários/as de Cabo Verde estavam sempre de parte. Espero que não seja por motivos de racismo dos/as outros/as até porque, ainda por cima, estes estudantes africanos superavam notoriamente os restantes em termos de comportamento e maturidade perante os assuntos por nós tratados (sexualidade na adolescência e violência no namoro).

Nos contactos com as populações, mais do mesmo. Quando iniciamos o inquérito, respondem-nos sempre no início que a situação entre homens e mulheres não está mal.


E no passado? “Ah, aí sim havia problemas…ah… mas agora já não”. Mas se continuarmos a insistir, lá vamos recebendo indícios que algumas coisas não andam bem, muitas vezes em casa. De qualquer forma, surpreendeu-me a atitude das mulheres em Mértola, mais independentes e com iniciativa do que em Aljustrel. Algumas vezes, eram elas que se aproximavam, coisa que não tinha acontecido no mês anterior. Talvez não tenhamos , equipa do Projecto, conseguido criar tanta empatia com as pessoas de Aljustrel. Por outro lado, os homens eram muito desconfiados, nomeadamente alguns lojistas, sempre de cara fechada e mesmo falando com eles nem olhavam para a minha cara. Puro patriarcado. Até doeu.

De ressalvar o interesse revelado por uma jornalista de uma rádio local pelo projecto e pelo tema da violência de género/doméstica em que a 2ª entrevista à Magda demorou 1 hora com perguntas bem sequenciadas, de forma a que os/as ouvintes pudessem aceder a uma substancial informação sobre os sinais e de como agir perante uma situação de violência doméstica.

Um momento memorável foi o da Manuela Góis num centro de dia a falar para uma plateia de seniores, maioritariamente feminina. Isto porque para mim a Manú é das mulheres mais empoderadas que conheço, em todos os sentidos e como a distância em termos de autodeterminação sexual dela para mulheres idosas rurais é enorme, estava com imensa curiosidade e empolgamento para ver como se articularia e como seria ouvida pelas idosas. Foi certamente um momento alto, porque além de inesperado em termos do que costumamos fazer enquanto UMAR, correu bem, entre alguns risos, sobretudo das funcionárias. Não percebi porque é que as idosas não se riram: se por maturidade ou se por não terem ouvido ou percebido bem certas partes, como o do uso do lubrificante. Falou-se sobretudo da importância do cuidado das mulheres idosas consigo mesmas, de se sentirem bem, inclusive fisicamente, de poderem ter um novo namorado mesmo sendo viúvas (tabú para muitas no Alentejo), de poderem e merecerem ter uma sexualidade agradável e com prazer. As idosas participaram na sessão, iam dizendo o que achavam e agradeceram-nos muito sentidamente no final. Sentiu-se na despedida um pouco da sua solidão.

Escrito por J.



A Semana pela IG de Mértola foi para mim rica em acontecimentos e aprendizagens. Eu que não conhecia aquela localidade, gostei do que vi, fiz e aprendi. Uma vila - digo vila porque infelizmente não nos foi possível ver todo o concelho e as suas 100 e tal freguesias - linda, com pessoas muito acolhedoras e interessantes. As pessoas com quem conseguimos falar aquando a dinamização da biblioteca itinerante mostraram-se bastante interessadas, nomeadamente as mulheres. Lembro me da Vitoria (nome fictício) cujo percurso de vida não foi fácil, vítima de violência doméstica, agora separada mas ainda marcada por este seu passado mas que apesar de alguns dos seus familiares não terem respeitado essa sua decisão, considera que tomou a opção certa e procura agora continuar, de forma autónoma, o seu percurso. O caso de vitória não foi um caso isolado. Foram muitos os relatos de violência que nos chegaram, entre jovens e menos jovens. Não houve uma iniciativa que nós dinamizássemos em que não ouvíssemos pelo menos um relato de violência.


Um jovem, por exemplo, contou-me que a violência sobre a sua mãe só cessou quando ele e o seu irmão enfrentaram o seu pai, apresentando inclusive queixa à GNR. Contudo, ela está hoje novamente com o seu marido e apesar de ela dizer ao seu filho que as coisas mudaram, este continua com receio que o ciclo de violência se repita.


Ou o relato de uma jovem que foi vítima de violência psicológica, física e sexual por parte do seu namorado durante vários meses. Ou o de um jovem rapaz que no final de uma sessão sobre violência no namoro, me veio pedir para lhe enviar os materiais da sessão para ele enviar a uma amiga para quem, segundo ele, “seriam muito úteis”. Vi pela primeira vez o filme dou te os meus olhos , que fala de violência,  e que de facto é um óptimo filme para sensibilizar sobre estas temáticas. Aliás, no final do debate sobre o filme, em que só estavam mulheres, um mulher idosa veio relatar-nos o seu caso de violência psicológica.


Algo que me marcou também foi ver ainda assim o quanto "o termo" feminismos ainda é mal-entendido ou mal percepcionado, mesmo por pessoas sensibilizadas para as desigualdade de género. No debate organizado na terça-feira, foi patente para mim como continua a não ser fácil falar destas questões de forma mais global, identificando sociedades patriarcais e as suas repercussões por todo o mundo. Senti que este é um discurso que ainda não é bem compreendido. Desafios para nós, feministas. Foi notório, nomeadamente nas sessões sobre sexualidades e afectos nas escolas, nas iniciativas de rua com a biblioteca ou na sessão com idosos/as no centro social de Montes Altos, a importância de aliarmos várias gerações de feministas nas nossas deslocações para chegar a vários públicos e nos enriquecer mutuamente.


O tema da orientação sexual foi um tema que procuramos abordar nas várias sessões . Um tema que muitos/as (jovens)pessoas dizem respeitar mas que ao longo da sessão, entre risos, conversas paralelas, ou discursos manifestamente "politicamente correctos"/não sentidos, sentimos que existe bastante preconceito, nomeadamente por parte dos (jovens)homens com conceitos de "masculinidade" bem definidos, e excludentes pois. Aliás, conheci um jovem homossexual vivendo em Mértola - a quem aliás demos vários panfletos sobre associações como a ILGA ou a Rede ex aequo ou panfletos sobre sexualidade dirigido a pessoas LGBT -que nos disse isso mesmo. Sentiu e sente a discriminação, inclusive por parte da família, mas é um jovem determinado em ser o que é, e em ser respeitado por isso. Que bom!

Outra coisa para mim importante: se já valorizava a profissão de professor/a , passei a  valorizá-la muito mais. Bolas, não é fácil passar conteúdos procurando ser interactivo e à escuta dos/as alunos/as. É muito enriquecedor mas também cansativo, mas mais do que isso são muitos os casos de famílias destruturadas, carências económicas, violência doméstica, problemas de integração, problemas de aprendizagem, etc., etc, e um/a professor/a próximo dos seus/suas alunos/as é também, por certo, uma pessoa que assume um papel bem para além do ensinar. Não deve ser fácil mas é sem dúvida crucial.

Foi bom ver o quanto durante estes dias, conseguimos de alguma forma inserir nos no tecido local pois a meio da semana eram já várias as pessoas que nos cumprimentavam. Parti com o sentimento de que o nosso trabalho foi importante e deixou sementes, mas também parti com outra noção, um banho de realidade, sobre as dimensões da violência doméstica e no namoro. É este o país e as relações de poder que temos, temos que fazer mais e melhor para mudar isso, mas nesta matéria as comunidades locais, os agentes locais, têm de facto um papel muito importante. Pessoalmente, o sentimento de alguma impotência não deixa de ser grande…

Escrito por M.