Semana pela Igualdade de Aljustrel (20-26 Outubro 2011)

Esta primeira semana pela igualdade marcou-me especialmente no sentido do contacto com pessoas com as quais não estava habituada a comunicar, nomeadamente crianças ciganas e aldeões/aldeãs do Alentejo.

Gostei muito do contacto com as crianças quando a nossa carrinha estava junto da Feira do Livro e marcou-me o facto de elas serem bastante vivazes, espertas e com toda e efervescência e capacidade para aprenderem bem e, olhando para os pais e as suas condições sociais e culturais, prever que, muito possivelmente, muito desse potencial que desejaríamos ver desenvolvido se perderá. Enquanto os/as filhos/as de feirantes acompanham os seus pais e mães nas feiras eles/as passam muito do seu tempo entregues a si, sem o acompanhamento pedagógico e cultural que poderiam ter. São muitas horas - de manhã à noite em feiras. E será que têm acompanhamento educativo e incentivo aos estudos em casa? E as diferenças de género que já se notam nessas crianças? Rapazes e raparigas sempre separados.

Outro momento que me marcou foi a ida à primeira aldeia, Rio de Moinhos. Uma aldeia pouco povoada e humilde, mas cuidada, como é característico no Alentejo. Ao chegarmos deparámo-nos com alguns homens sentados no largo principal. Aqui, como constatámos em mais sítios no Alentejo, o espaço público ainda é muito masculino. Mulheres… mal se vêem nas ruas. Quando iniciámos o nosso “truque” para conversar com os locais, perguntando-lhes se poderiam responder a um pequeno inquérito sobre igualdade entre homens e mulheres, um sobressaiu. O senhor Francisco. Sobressaiu pela sua franqueza e clareza de pensamento. Politizado e com gosto pela leitura gerou-me imensa simpatia. Respondeu de forma inequívoca quanto à opressão das mulheres, sobretudo no tempo do Estado Novo. Utilizou mesmo a expressão “escravas”, relativas às mulheres (do trabalho e dos homens); que “andavam todas tapadas”, até pareciam árabes; só saíam de casa na presença de uma familiar mais velha; que o quotidiano em casa era de uma violência e fome constante; que o trabalho era muito duro e a mão-de-obra era vendida à jornada em praça pública onde um capataz da herdade escolhia os trabalhadores para esse dia; do conflito e divisão entre os trabalhadores em que uns baixavam os preços da sua mão-de-obra para serem escolhidos entre os outros; que “houve muitas Catarinas no Alentejo…”. Enquanto tive esta conversa, a Magda tentou filmar, mas com o barulho do gerador da carrinha ligado, duvido que dê para aproveitar. Houve também uma coisa que me ficou na memória: quando este entrou na carrinha e escolheu o livro de Irene Pimentel sobre a Mocidade Portuguesa Feminina. Disse-lhe que estaríamos na aldeia toda a manhã e que poderia lê-lo enquanto estivéssemos lá. Saíu da carrinha e voltou a sentar-se no banco da praça. Folheou-o com interesse e foi comentando comigo e o amigo sentado ao seu lado partes deste. Tinha o 6º ano mas sabia o que estava a ver. Falou-me da congénere espanhola, a falange franquista e do papel das minas portuguesas para ajudarem os nazis. Comoveu-me quando me disse que “não se consegue ler um livro assim, em 5 minutos!”, que gostaria de o levar para casa como antes fazia com as bibliotecas da Gulbenkian. Foi a partir daqui que me fui apercebendo realmente da importância das bibliotecas da Gulbenkian na difusão da leitura em Portugal. Mas como o nosso projecto poderá não passar duas vezes no mesmo sítio e não estando previstos empréstimos, respondi-lhe que tínhamos oferecido muitos livros à Biblioteca Municipal de Aljustrel, pelo que poderia consultá-los lá. Ao que um me respondeu que se já é difícil apanhar transportes para ir ao centro de saúde quando estamos doentes, quanto mais para ir à biblioteca municipal? Fiquei sem resposta. Foi neste momento que comecei a sentir melhor os problemas da interioridade, dos fracos transportes (piores ainda que os dos subúrbios de Lisboa), das distâncias…


Esse senhor que me respondeu isso também me surpreendeu por outra coisa. O facto de ter noção dos seus próprios limites culturais. Quando lhe tentei explicar sobre a igualdade de direitos entre casais homossexuais, disse-me, como era de esperar que não concordava com isso. Eu insisti até que este concluiu que deveria fazer esses inquéritos só com pessoas até aos 40/50 anos. Com as pessoas mais velhas do que isso, já não valia a pena. Despedi-me e informei-o que partiria para a freguesia de Messejana, ao que este respondeu a rir às gargalhadas que “iria ver a praia”. Fiquei com cara de parva sem perceber, pois estava no interior. Após uns segundos de silêncio, esclareceu-me com um acentuado e característico sotaque “Estava a brincar, menina. É brincadera!”

 

À tarde, fui então a Messejana, mas não vi praia nenhuma. Só semanas mais tarde é que me explicaram que é uma piada muito conhecida no Alentejo.


Num Alentejo em que o homem “Os senhores de si” habitam a rua sem a presença visível do outro sexo, aqui foram as mulheres (reformadas) que se aproximaram de nós e com elas ficámos toda a tarde. Entre jogos de perguntas sobre igualdade, questionários e apresentação do espólio da carrinha, falou-se de tudo: desde trabalho, política, a vida antigamente, sexualidade para mulheres séniores, etc. Gostei sobretudo quando uma dessas senhoras se interessou muito pelo livro da Guida Vieira (lendo-o em voz alta para a amiga acompanhar) porque na parte sobre a infância, recordou-se também da sua “Era assim mesmo!” “Tal e qual!” “O pai dela não a deixava estudar”. Era assim na altura, esclarecia para mim e para a amiga. Disse-lhe que podia consultar o livro na biblioteca municipal ao que respondeu que iria sim, tal o seu interesse pelo livro. Fiquei outra vez sem palavras e disse-lhe que lhe oferecíamos um exemplar. Os olhos dela brilharam, abraçámo-nos comovidas. Quis uma dedicatória da UMAR no livro e oferecer-nos um café (Joana, Magda e Carla) nem que fosse à força. Disse-me que iria lê-lo e emprestá-lo às amigas. Quanto à sua amiga, vi que ficou interessada nuns folhetos sobre sexualidade para seniores e escolheu um deles intitulado “Cuidar de Si”, pois achou que mesmo com a idade é preciso cuidarmo-nos. Levou-o consigo e sentou-se no pelourinho da praça onde estávamos, onde o leu com muita atenção e o mostrou a outra amiga. Docemente, a tarde foi passando com conversas bem interessantes com estas senhoras, sem que os senhores se aproximassem. No final apareceram umas jovens que se interessaram e escolheram para ler, claro está, um livro sobre sexualidade para jovens/educação sexual. Sentaram-se num banco da praça para o desfolhar, num jeito meio clandestino, como se algo de proibido estivesse entre mãos e, ao mesmo tempo que comentavam encurvadas certos trechos, soltavam as tão típicas gargalhadinhas da adolescência.


A minha experiência na freguesia de Ervidel foi mais dura: pessoas idosas cinzentas tal como a manhã desse dia. Homens idosos muito desconfiados, muitos analfabetos, e um dono de loja particularmente machista, com um machismo primário que me deixou chocada. Para este “Senhor de si” o valor do trabalho das mulheres, fosse qual fosse, era sempre inferior ao do homem. Uma mulher ceifando todo o dia curvada não era nada comparado com o de um homem com um tractor; ou passar a ferro é uma coisa fácil e levezinha (embora nunca o tivesse feito).

A outra freguesia à qual fomos (S. João de Negrilhos), não teve muito proveito devido ao mau tempo, mas ainda deu para falar com calma com uma funcionária da junta que se queixou do ambiente de hostilidade e machismo entre as mulheres, que se julgam umas às outras e que têm uma mentalidade muito fechada. Por exemplo, ainda acham mal que uma mulher vá ao café ou que converse com um homem. Explicou que a vida de uma mulher que tenha a “mente mais aberta” nestas aldeias é difícil.

As idas a escolas em Aljustrel não me marcaram muito, à excepção de um aluno que se mostrou particularmente interessado nos materiais informativos da carrinha e que nos pediu que lhe enviássemos por email uma listagem de livros temáticos para ele os procurar e comprar. E claro que lhe enviámos!

Escrito por J.



Aljustrel era o primeiro concelho no qual o Projecto BIIG ia dinamizar as Semanas pela Igualdade de Género, pelo que o nervoso miudinho imperava um pouco, até porque era, para mim, a primeira vez que ia dinamizar sessões em escolas (ainda por cima umas a seguir às outras!). De facto, o calendário e os timings das sessões não eram os melhores, mas já tinha sido óptimo conseguirmos entrar nas escolas de Aljustrel, pelo que antes aproveitar a disponibilidade existente do que desperdiçar esta oportunidade de falar com diferentes grupos de jovens. E a verdade é que a partir do momento que as sessões começaram , o nervoso desapareceu e a coisa encadeou-se naturalmente e correu bem. Foi contudo cansativo porque foram sessões atrás de sessões e em algumas o tempo disponível foi demasiado curto, pelo que alguns/mas jovens colocaram nas fichas de avaliação que tinha sido demasiado pouco tempo ou que foi demasiado a correr. Contudo, a maioria dos feedbacks foram positivos, nomeadamente os dos/as mais novos/as (7º a 9º ano) com os quais usamos mais jogos pedagógicos e vídeos.
A receptividade e o interesse das turmas foi discrepante, havendo algumas turmas que se destacaram e outras que nem tanto. Lembro me bem o quão difícil foi - e um pouco, para mim, constrangedor - conseguir fazer com que um dos grupos, constituído apenas por 10- 12 alunos/as, participasse. Apesar do formato da sessão ter sido até bastante dinâmico e usando vários recursos, não foi fácil conseguir ouvir a opinião deles/as. Outra, pelo contrário, fez imensas perguntas e mostrou se muito interessada.


De qualquer forma, gostei imenso de abordar estes temas com eles/as e senti-me bastante à vontade o que, convenhamos, era importante.


Agora, estas sessões foram também importantes para começar a perceber que formatos funcionam melhor (sessões de 45 minutos não são de facto as melhores; nem 6 sessões num dia, como aconteceu na escola secundária; nem sessões genéricas sobre igualdade de género em que fica difícil não falar de todos as áreas, entre outras coisas), que técnicas conseguem maior interacção, bem como para ter a devida noção de que “apesar” de serem jovens, vários/as deles já têm estereótipos bem ancorados, nem sempre fácil de abalar. Isto só nos relembra que a educação (formal, não formal, informal) não sexista deve começar nos primeiros anos.


A pertinência da existência de organizações de desenvolvimento local, a importância e o possível alcance da intervenção comunitária, o papel das autarquias, todo o potencial que o “local” tem, ficou também para mim bem patente nesta deslocação à Aljustrel.


E, enquanto feminista, o contacto diário com várias e diferentes pessoas e realidades apareceu-me como fundamental. Se não acontecer, não só cingimos a nossa intervenção aos centros urbanos, às cidades, como andamos a falar para “nós próprias”. Para mim, foi bom também para ter uma maior noção do que se faz pelo nosso país fora e de perceber que há autarquias que têm respostas, politicas e programas indo ao encontro das necessidades, e por vezes até , respostas mais originais/inovadoras do que o que se poderia pensar.


Saí de Aljustrel com vontade de reforçar a minha acção a um nível mais micro. Quem sabe, se, no final do projecto não me mudo de lisboa para…

Escrito por M.