AS TREZE* E A POESIA, NO DIA DO NASCIMENTO DE NATÁLIA CORREIA

Natália Correia: a pitonisa sem temp(l)o

13. Foi a 13 que, retomando o verso de homenagem de Hélia Correia, Natália recebeu o “nome de nascer”. Um nome de nascitura permanente no seu ofício poético que foi também, como se sabe e reconhece, uma voz presente e penetrante no plano cívico e político. Cultivadora de excessos, jornalista, dramaturga, romancista, deputada… proeminente figura no repensar do feminino e dos feminismos em contexto político e cultural, Natália Correia foi essencialmente uma energia poética, uma voz impositiva de intransigência e de magia cujo alcance marcou indelevelmente a paisagem cultural lusófona. O título desta iniciativa, As 13 e a poesia, adquire uma relevância digna de sortilégio, quando, no dia do nascimento de Natália Correia, tantos dos seus interesses se mobilizam no mesmo lance e ao mesmo tempo. Celebrando a poeta, o Grupo das 13 não deixa de saudar a sua própria inspiração, alicerçada na justiça dos ideais republicanos e na emergência da emancipação das mulheres, recordando contextos de uma República centenária mas ainda por cumprir… O dia em que nasceu Natália Correia, ou a “Ordem de um 13 que sangra entre os arcanos”, no verso da autora de “Mátria”, revisita-se, hoje, pela voz das 13: Tarefa plenamente política; missão cert(eir)amente poética!

 

“da rebeldia faço o meu navio” (N. Correia)

“Il faut bien manger” (J. Derrida)

A poesia, como tão bem testemunha o século XX português, enfrentou sempre o limiar de uma realidade a corrigir ou reinventar, mesmo que reclame, com acinte, nada ter a ver com ela. Há então uma política (ou uma poética) do espaço e do espaçamento – entre refutações e confirmações; entre contextos e condições – na relação entre o poema e o mundo, na permanente capacidade que ambos têm de se imiscuírem um no outro.

Falar de uma poeta que, além de reinscrever nos versos o destino do seu nome, quis fazer da rebeldia o seu navio não pode deixar de implicar a deriva entre o saber desrazoável da Sibila, de que falou Maurice Blanchot, e a evasão de um mundo que apodrece, como Che Guevara na pena meditativa de Sophia. Pendular, entre magia e realidade ou entre voo e enraizamento, o tom de Natália Correia perdura na modulação de uma das vozes poético-políticas do século que passou. Entre situação e transgressão, fale-se de poesia, com o cuidado necessário ao aflorar a fragilidade palpitante da sua assinatura.

Cuidado, então… trata-se de uma poeta! Evite-se o excesso laudatório a quem se irredutibilizou, amarga e docemente, aos floreados dos discursos oficiais e oficiantes. Respeite-se a face mais pura da sua presença política, ao afirmar-se de Natália o que tantas vezes se lhe foi recusando. Fale-se pois de uma poeta. Afirme-se alguém que confessa, na “Câmara de Reflexão”, que nos versos joga a sua vida; e defendamos, então, que é esse jogo caprichoso e intransigente a forma maior da sua generosidade, o seu maior poder, a mais prolífica fonte da sua autogénese. Para lá da polémica entre poesia e empenhamento político e da palavra, sempre original, de Natália Correia quanto a esta questão(1)Veja-se a resposta de Natália Correia ao inquérito promovido pela Colóquio/Letras: “«Vanguarda ideológica» e «vanguarda literária»”, In: Revista Colóquio/Letras. n.º 23, Jan. 1975, pp. 25-26. , a poesia soube ser em Natália essa arma carregada de futuro, cantada por Gabriel Celaya, numa altura em que se pôde, finalmente, nutrir o Presente de todos os seus possíveis. Há, na poesia de Natália Correia, uma recusa em abdicar de seja o que for, vivendo nela a profetisa e a vestal, como a juíza e arquitecta de tempos mais gratos, deusa carnal e voz de excluídos/as. Trata-se de uma pitonisa sem temp(l)o, voz nascitura de mulher e de poeta num tempo para moribundos e homens vernáculos, não apenas pelas venturas e desventuras da sua voz firmemente política, mas essencialmente pela singularidade da sua presença poética, ainda hoje insuficientemente celebrada.

Encontramo-nos então, recusando desde logo um muito ingrato exercício de “síntese”, com duas vibrações recorrentes na poesia de Natália Correia, entre o testamento poético de “Ó véspera do prodígio!” e a sublime intransigência em “A defesa do poeta”. Tanto na crença “nas lendas, nas fadas, nos atlantes” como na esconjuração de juízes que não molham “a pena na tinta da natureza” reconhece-se essa espiritualidade pessoal, profunda, essa mística recriada e contestatária que permite a sentença de O Romper da manhã na noite mística: “Deus inconcluso, falta-te ser mulher”. Mas reconhece-se igualmente o forte e terreno sentido de justiça, de voz e olhar incendiados perante os desmandos de um mundo que não se sabe esculpir a cinzel de poeta, por falta de pano que ponha em marcha o navio do sonho:

“Sou uma impudência a mesa posta

De um verso onde o possa escrever

Ó subalimentados do sonho!

A poesia é para comer.”

A poesia é para comer – É preciso comer!; ensinamento insurgente desta pitonisa sem temp(l)o que, vestida das palavras que dedicou a Florbela Espanca, é estátua “soberba e mítica” num contexto que nunca a reconheceu plenamente. Revisitando-se o 13 de Natália, dia em que se completaram “as letras do seu teor”, urge reconsiderar, como as 13 por sua vez nos ensinam, o poema como instância política, ora desejo adejando sobre agendas e interesses ora moscardo de Sócrates espicaçando consciências demasiado humanas, desatentas ao “Sol nas noites” e cegas para o “Luar nos dias”. No dealbar do dia 13, celebre-se a noite de Natália!

Hugo Monteiro - correspondente do GUPO DAS TREZE, no Porto 

13/9/2010

 

O GRUPO DAS TREZE* surgiu em 1911 e pretendia combater a ignorância e as superstições, o obscurantismo, o dogmatismo religioso e o conservadorismo que afectavam a sociedade portuguesa e impediam a emancipação das mulheres.

 

Para celebrar os 100 anos da Implantação da República e lembrar as mulheres republicanas que se destacaram na luta pelo fim da monarquia e pela proliferação dos valores da liberdade, igualdade e fraternidade, como foram o Grupo das Treze, a UMAR desenvolve encontros, tertúlias, acções de rua, durante todo o ano, no dia 13 de cada mês, tal como o Grupo das Treze o fez, de 1911 a 1913.