Simone de Beauvoir: uma mulher para além do seu tempo

Manuela Tavares
29/3/2008


O Congresso Feminista 2008 vai realizar-se no ano do centenário do nascimento de Simone de Beauvoir (1908-1986), uma mulher com particular significado para muitas de nós, cuja vida atravessou grande parte da história do século XX. Daí este texto, que procura homenagear a sua memória.
Simone de Beauvoir foi uma mulher que viveu, pensou e amou em liberdade. Foi uma mulher que recusou convenções, que se envolveu em todos os domínios da vida com uma energia quase selvagem e uma grande sede de liberdade.
Do seu livro, publicado em 1958, “Mémoires d’une jeune fille rangée”, Simone mostra o seu gosto pelo conhecimento, a sua paixão pela filosofia, a sua determinação em ter uma existência marcada pelo direito de escolher. “O destino não existe, depende de nós próprios”, afirmava, então.
O seu pensamento antecipa o feminismo de segunda vaga, que surgiria duas décadas após a publicação de “O Segundo Sexo” (1949), uma marca fundamental no pensamento feminista do século XX, não só porque desconstrói a ideia da “mulher /natureza” presa a um destino biológico - o de ser mãe e esposa dedicada -, mas também porque introduz no discurso político, questões consideradas tabu, como a sexualidade feminina, o direito à contracepção e à legalização do aborto, que tinham sido evitadas pelas feministas da primeira vaga, salvo raras excepções como a de Nelly Roussel e de Madeleine Pelletier{yootooltip title=[(1)]}Nelly Roussel afirma em 1903: “Ninguém tem o direito de impor uma maternidade como ninguém tem o direito de a interditar. Que cada mulher escolha ela própria o seu destino”. Madeleine Pelletier, médica, chega a assumir o direito ao aborto, tendo sido por esse facto presa e internada numa clínica psiquiátrica.{/yootooltip}.
Recordemos a época em que foi publicado “O Segundo Sexo”: quatro anos após o final da segunda guerra mundial, pressão pró-natalista dos governos e para o regresso das mulheres ao “doce aconchego” do lar, os filmes “cor de rosa” em que a “heroína” era sempre uma mulher que casava e que viria a ter uma prole de crianças.
O pensamento libertador de Simone de Beauvoir faz ruptura com tudo isto. Opõe-se ao puritanismo e ao maternalismo do pós-guerra. Rasga o véu do determinismo biológico e explica que as mulheres não têm de estar amarradas a nada, a não ser a elas próprias, como sujeitos autónomos e senhoras do direito de decidir sobre as suas vidas. Ela evoca os corpos das mulheres como territórios livres. Fez, deste modo, a ruptura com o feminismo de primeira vaga no que concerne à sua distanciação das questões relativas à sexualidade e à contracepção.
O seu pensamento como feminista influenciou as obras de Betty Friedan que publica em 1963, “A mística da mulher”, grande sucesso editorial da época e, ainda, as obras das feministas da corrente radical: Kate Millet e Shulamith Firestone que publicam nos anos setenta: “Sexual Politics” e “The Dialectic of Sex”.
Podemos dizer que Simone de Beauvoir esteve sempre à frente do seu tempo.
Uma década antes de Betty Friedan ter desconstruído a imagem de mulher dona de casa da classe média, muito feliz, que alimentava as capas das revistas norte-americanas, Simone põe em causa esse mesmo estatuto.
Vinte anos antes do Movimento de Libertação de Mulheres ter nascido em França, o seu pensamento continha o gérmen das novas reivindicações feministas. Antecipava mesmo uma nova geração de feministas, com quem conviveu nos anos setenta nas ruas de Paris, nas manifestações pela legalização do aborto, na solidariedade para com a jovem de Bobigny julgada por aborto, na presidência da associação “Choisir” pela contracepção e aborto, no manifesto das 343 francesas de renome que declaram já ter abortado, publicado no “Nouvel Observateur” de 5 de Abril de 1971.
Quase quarenta anos dista o seu conceito de mulher, como construção social e cultural – “Não nascemos mulheres, tornamo-nos mulheres” - , da obra de Joan Scott: “Gender and the Politics of History”(1988), que introduz o conceito de género como uma construção social e cultural dos papéis assumidos por mulheres e homens, e do pensamento de Judith Butler, que sustenta ser o sexo também socialmente construído em “Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity” (1990). Hoje Simone de Beauvoir é revisitada pelas teorias Queer, que nascendo dos estudos gays e lésbicos contestam a ideia de uma identidade fixa.
Como afirmava Ana Luísa Amaral, num recente artigo no Público: “Simone de Beauvoir abriu caminho para a teorização em torno das desigualdades construídas em função das diferenças. Reflectiu sobre as razões históricas e os mitos que fundavam a sociedade patriarcal e que tratavam a mulher como um segundo sexo, silenciando-a e relegando-a para um lugar de subalternidade”{yootooltip title=[(2)]}AMARAL, Ana Luisa, “Simone de Beauvoir. Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”, in Público de 9 de Janeiro de 2008, P2., p. 8.{/yootooltip}.
Mas como todas as grandes figuras de mulheres, Simone de Beauvoir foi alvo de contestação. A recepção de “O Segundo Sexo” em França foi um escândalo. Em Maio de 1949, a revista Les Temps Modernes publicou um dos capítulos do livro que se debruçava sobre “a iniciação sexual das mulheres”, onde se falava do orgasmo, da sensibilidade vaginal das mulheres.
Vinte e dois mil exemplares foram vendidos em duas semanas, mas as críticas choveram de todos os lados, da direita e da “esquerda”. A direita acusou-a de “imoral”, “pornográfica”. Insultos diários surgiam por parte dos sectores católicos conservadores e o seu livro foi colocado no Índex dos livros proibidos, deixando mesmo de ser vendido em algumas livrarias. A esquerda da época, fortemente influenciada pelo PCF e incapaz de vislumbrar ventos de mudança, também fez a sua condenação pública. O Segundo Sexo foi considerado por Jeannete Prenant, como a “suprema diversão inventada pelo campo reaccionário a fim de desviar a atenção das mulheres do verdadeiro combate pela sua libertação”.
Também, por ter sido criticada pela direita e por uma esquerda ortodoxa, Simone de Beauvoir mostrou ter sido “uma mulher para além do seu tempo”, porque anunciava também as rupturas que na esquerda se viriam a dar, tendo como um dos fios condutores o combate ao dogmatismo, incapaz de olhar o marxismo de uma forma libertadora para os próprios direitos individuais.
Estas foram as críticas da época.
Contudo, outras críticas têm surgido ao longo das duas últimas décadas dentro do campo dos feminismos, que me parecem “forçadas”, porque descontextualizadas do período histórico em que surgiu o Segundo Sexo. Estas críticas transformam o pensamento libertador de Simone de Beauvoir numa concepção de “universalismo fálico”, como afirma Júlia Kristeva, na medida em que Simone pretenderia que as mulheres fossem iguais aos homens, sem colocar em causa uma igualdade construída em função dos valores masculinos dominantes. Não colocando em causa a necessidade de nos demarcarmos do “sujeito universal neutro”, que oculta as desigualdades entre mulheres e homens, ou de uma cidadania que não tenha em conta as diferenças, parece-me abusivo transformar o pensamento libertador de Simone de Beauvoir numa herança da qual seja preciso libertar-nos, como afirmava violentamente Antoinette Fouqué no dia a seguir à sua morte, em 1986: “Esta morte não é um acontecimento, mas uma peripécia que vai acelerar a entrada das mulheres no século XXI”. Pelo contrário, faço minhas as palavras de Elisabeth Badinter no dia da sua morte: “As mulheres devem-lhe tanto!”.
Também, contrariamente ao que, por vezes, é levianamente afirmado, o pensamento de Simone de Beauvoir não constituiu um travão e um impasse teórico para o feminismo. Tal, como hoje, não podemos dizer que a desconstrução do sujeito “mulher” fruto de algum pensamento pós-moderno seja em si impeditivo de novos desafios na teorização dos feminismos.
O Congresso Feminista de 2008 como espaço inclusivo dos feminismos, na sua pluralidade de pensamento, acolherá todas as visões que se vierem a fazer sobre o pensamento e a obra de Simone de Beauvoir. Contudo, não poderá deixar de lhe prestar a homenagem histórica como pioneira no pensamento feminista contemporâneo.

Manuela Tavares
29/3/2008