Violência de género, saber e agir: Perspectivas actuais da investigação e intervenção feminista

Decorreu, em Angra do Heroísmo, nos dias 22 e 23 de Outubro, um encontro formativo da UMAR dedicado às perspectivas de investigação e intervenção mais recentes na violência de género. A desconstrução do pensamento misógino e dos comportamentos machistas e sexistas (na sua forma hostil ou subtil) constituiu-se como elemento central neste encontro formativo.

As perspectivas dominantes sobre a masculinidade e a feminilidade e sobre a violência de género nas relações de intimidade conduzem a análises inadequadas do problema e a uma intervenção ineficaz, podendo resvalar para a culpabilização das vítimas e a desculpabilização dos agressores. O sexismo e o machismo consistem em preconceitos que condenam antecipadamente as mulheres e justificam os homens violentos.

Assistimos, muitas vezes, ao desenvolvimento de teorias que pretendem fazer o paralelismo entre a vida social dos seres humanos e o comportamento dos primatas, querendo, com isto, atribuir um carácter imutável, genético e ‘natural’ à submissão das mulheres e à violência masculina. Pena é que não se decidam a ir viver nas cavernas e ignorar os milénios de racionalidade, progresso e desenvolvimento da nossa comum (homens e mulheres) humanidade.

Neste encontro, reflectimos acerca de uma perspectiva feminista na compreensão da violência de género, na medida em que esta visão traz uma compreensão mais global e abrangente sobre este grave problema social: não o reduz a comportamentos individuais nem o restringe ao universo familiar, mas explica como a sociedade patriarcal está estruturalmente organizada para a submissão das mulheres no trabalho, na política, na arte, na ciência e, também, na família. Aqui, o feminismo mostra como a família não é uma ilha isolada do resto das relações sociais, é antes uma instituição na teia imbrincada das relações interinstitucionais, de classe social, de etnia e de género, onde existe igualmente a hierarquia do poder de género.

O feminismo explica também como a socialização sexista (de todas e todos nós, mesmo das/os investigadoras/es e das/os técnicas/os) se exerce através da linguagem, da educação, da divisão sexual do trabalho, da genderização das profissões, da distribuição desigual das responsabilidades parentais e domésticas, da distribuição desigual dos cargos e do poder de decisão, atribuindo o espaço público aos homens, onde se espera deles competição, assertividade, afirmação, racionalidade, independência, progresso, cultura, e o privado às mulheres, onde lhes são atribuídos a sensibilidade, o cuidar, os afectos, a intimidade, a dependência. Esta divisão sexual do mundo constitui-se como crucial na criação de condições para os homens serem agressores e as mulheres vítimas. Esta separação do mundo em duas metades, além de ser um desperdício de talentos e bem-estar (quantos bailarinos, quantas engenheiras se perdem devido aos estereótipos), é também um campo minado na construção do amor, da paixão, da intimidade, da relação com o ou com a outra. Dela se espera que não pense em si, que seja altruísta, e que, por ser boa, tenha sucesso no espaço privado. Dele se espera que se centre nos seus objectivos (mesmo usando a força se necessário) e seja bem sucedido no espaço público.

Quando uma mulher se enreda num amor com um homem que, a certa altura, mostra indícios de vir a ser violento, tudo lhe diz e a empurra para ignorar os primeiros sinais e, o que é mais perigoso ainda, para investir na relação para que o agressor mude, porque lhe é muito difícil aceitar o fracasso nesta dimensão da sua vida – parece e vai mesmo ficando, também pelas estratégias do agressor, progressivamente isolada, sem amigos/as, família, muitas vezes sem trabalho… As investigações mostram, no entanto, que, faça a vítima o que fizer, o agressor não muda, e, se ela ainda tentar corresponder aos seus desejos, o ciclo da violência tende a agravar-se.

Articulando intervenção directa com prevenção primária e assentando numa articulação dialéctica entre investigação e acção, o saber acumulado por décadas de pesquisa e trabalho feministas não pode já ser desperdiçado, para evitarmos cometer os erros em que as perspectivas tradicionais (sistémica, cognitivo-comportamental, funcionalista) incorreram e que estão sobejamente documentados. Importa realçar sobretudo os riscos do prolongamento e agravamento do sofrimento das vítimas e o reforço da perpetuação deste tipo de violência.

Mais ainda, este encontro permitiu articular a desigualdade de género com a de classe social. Pretendia-se estender esta reflexão à articulação com as questões da multiculturalidade, etnia, diversidade de orientação sexual, idade e discapacidade, mas o tempo não o permitiu.

Finalizou-se o encontro com uma referência ao trabalho pioneiro das feministas no que se refere à intervenção com os agressores, apresentando alguns dos estudos que mostraram o impacto destes modelos de intervenção face aos modelos tradicionais. O feminismo, desde há mais de três décadas, vem clamando e desenvolvendo intervenção com homens agressores, até pela imperiosa urgência de romper com a continuidade dos processos de vitimização das relações de intimidade. Mesmo quando se consegue ajudar uma vítima é muito grande a probabilidade daquele agressor repetir o comportamento violento com a sua próxima namorada ou companheira.

Por isso, esta intervenção tem de incidir nos pontos nevrálgicos das causas do comportamento violento daquele homem em concreto – a sua misoginia, machismo e sexismo.

Sabemos que a mudança de atitudes, comportamentos e representações não se faz se não houver, da parte da pessoa, uma profunda compreensão das razões do seu comportamento, um empenhamento muito grande da vontade em ensaiar e aprender novas atitudes, novas visões do mundo, novas formas de comunicar e de actuar. E isto necessariamente assenta num princípio base – o seu reconhecimento de que tem um problema. Que o problema não está na outra, eventualmente, até nos outros, mas em si próprio, como homem, como pessoa. As perspectivas tradicionais continuam a pensar e a assentar as suas premissas na intervenção sobre a vítima. Não podemos esperar que os agressores cheguem à compreensão de que têm um problema e de que estão mal. Se, apesar do seu comportamento violento, nada na sua vida é afectado de modo fundamental – o seu trabalho não é afectado, a sua rede de amigos/as, portanto, o espaço público que é o mais importante para estes homens – não podemos esperar logicamente que este agressor equacione sequer a necessidade de mudar de atitude. Acrescendo a isto que eles (e a sociedade em geral) supõem e têm uma visão de que a mulher é culpada (em alguma coisa pelo menos), não é lógico esperar que algum anjo Daniel venha descer para influenciar estas mãos armadas para ‘apedrejar’ ou espezinhar aquela mulher e suas crianças.

Finalmente, este encontro permitiu a partilha de saberes, dúvidas, interrogações e pluralidade de perspectivas entre as diversas equipas da UMAR dos pólos, mostrando (a mim, particularmente) o dinamismo, a juventude, a alegria, a abertura e a inovação destas equipas. Ressalto ainda a profundidade de reflexão, o sentido de historicidade e a serenidade de Clarisse Canha e Maria José Raposo no enfrentamento dos novos desafios que nos /lhes estão colocados.