"Mulheres e Globalização"

6 de Junho de 2002

Para alguns, "a globalização é o melhor dos mundos; só o comércio livre permite o crescimento económico e essa é a esperança dos mais pobres".
Interrogo-me: este tipo de afirmações são feitas por ignorância ou por cinismo?
Para muitos milhões de pessoas, só a pobreza cresceu, nestes últimos 20 gloriosos anos de enorme circulação de capitais.
Esta globalização não assenta na solidariedade social, nem no respeito pelos direitos humanos.
Esta globalização assenta:
  • no empobrecimento intolerável de milhões de pessoas (600 milhões ganham menos de 1 dolár por dia);
  • na concentração do poder e da riqueza (as 200 pessoas mais ricas do mundo têm um rendimento superior ao rendimento de 40% da população mais pobre do planeta);
  • na degradação dos recursos naturais do planeta e na progressiva desqualificação do trabalho humano.
"O amargo sabor do chocolate" título de um editorial recente do Público punha a nu a escravidão que ensombra o mundo, neste início do 3º milénio. "Metade dos chocolates consumidos no mundo são fabricados com cacau produzido com mão de obra de crianças escravas" (in Jornal Público de 28/5/2002). Na Costa do Marfim, 15 mil crianças são sujeitas a trabalho forçado na plantação de cacau. Segundo a associação anti-esclavagista internacional haverá, pelo menos, 27 milhões de escravos em todo o mundo, sem falarmos dos novos escravos do trabalho imigrante no continente europeu.
Aos meninos da Costa do Marfim há a juntar milhões de meninas vendidas pelas famílias ou raptadas para servir como domésticas ou escravas sexuais dos seus donos.
Da Argélia ao Afeganistão, o fundamentalismo encarcera as mulheres no véu da submissão mais atroz, onde os mais elementares direitos humanos são negados. As mulheres são seres reprodutores, serviçais dos homens, enclausuradas pelo medo de serem degoladas ou apedrejadas até à morte. 130 milhões de jovens raparigas foram alvo de mutilação genital. Na Índia registam-se 10 mil casos anuais de infanticídio feminino e as viúvas continuam a ser queimadas em piras funerárias, num ritual a que se dá o nome de "sati".
Mas, estas situações não constituem preocupação das reuniões do G8, o grupo dos 8 países mais ricos do mundo, que entre si consertam a forma de dominar os circuitos financeiros, económicos e políticos mundiais. Como se afirma no último Boletim da Marcha Mundial de Mulheres: "G8 e Mulheres são mundos separados". Tal como no documento apresentado, pela Marcha, no Forum Social Mundial em Porto Alegre se refere: "Este tipo de globalização acentua a feminização massiva e crescente da pobreza e perpetua e provoca múltiplas formas de violência contra as mulheres. Porque se constrói sobre a desigualdade, a mundialização atira numerosas mulheres para a marginalidade e provoca uma maior exclusão, especialmente daquelas submetidas a opressões múltiplas. Esta globalização não é apenas capitalista e neoliberal, é também sexista. Os sistemas mundiais capitalista, neoliberal e patriarcal que se nutrem e reforçam mantêm a imensa maioria das mulheres numa inferioridade cultural, desvalorização social, marginalidade económica e numa iinvisibilidade da sua existência e do seu trabalho".

E os números falam por si:
  • As mulheres são responsáveis por 2/3 das horas trabalhadas no mundo, mas ganham 1/10 do rendimento mundial.
  • Mais de 70% da população mundial que vive em miséria extrema é constituída por mulheres. Os seus salários representam, em média, 50 a 80% dos salários dos homens.
  • Dos 900 milhões de analfabetos, dois terços são mulheres.
  • Em todo o mundo 78 mil mulheres morrem de abortos clandestinos e inseguros. 40% da população feminina não tem acesso a cuidados de saúde sexual e reprodutiva.
  • 3 a 4 milhões de mulheres são vítimas de violência, na maioria dos casos de violência doméstica.
  • 5 mil mulheres são mortas, todos os anos, por membros das suas famílias por motivos de "honra".
Mas estes não são só os números frios das estatísticas. Por detrás destes números existem seres humanos, existem mulheres que têm rosto.
E existe o crescer de uma consciência de que este mundo é injusto e amargo, de um amargo que nos invade por dentro, perante a indiferença e o cinismo dos que vêem nesta globalização o sinal inequívoco da modernidade e o fim da História. Para esses, esta globalização é um comboio em alta velocidade que ninguém pode parar.
Mas a história mais recente dos movimentos por uma globalização alternativa mostra que é possível meter alguns paus na engrenagem para fazer descarrilar esse comboio e, porque não, fazê-lo mudar de direcção.
Em Seattle, em 1999, o mundo viu, pela primeira vez, que existia resistência a esta globalização neoliberal.
A Marcha Mundial de Mulheres, no ano 2000, mostrou os enormes laços de solidariedade que podem unir as mulheres do mundo inteiro. De Março a Outubro de 2000, em 157 países, centenas e centenas de realizações mobilizaram milhares de mulheres contra a pobreza e a violência. Em Bruxelas, a 14 de Outubro, em Washington a 15 de Outubro e em Nova Yorque a 17 de Outubro, milhares de mulheres invadiram as ruas mostrando que "outro mundo é possível". Participante que fui, nesta Marcha, em Nova Yorque, ficou-me a memória da diversidade de faixas, de cartazes, de panos de todas as cores, de uma imensa massa de mulheres que fez parar o trânsito na 2ª avenida e que, das nações Unidas à Union Square, num percurso de quase 4 Km, não pararam de gritar, de cantar e de denunciar as discriminações que pesam sobre mais de metade da humanidade. "So, solidarité, avec des femmes du monde entier" ainda hoje soa, de forma muito nítida, nos meus ouvidos. Valeram-nos alguns escassos minutos na CNN, numa comunicação cada vez mais globalizada e monopolizada pela oligarquia financeira da comunicação social a nível mundial.
Nas "marchantes" ficou o ânimo para novas marchas e lutas numa rede mundial "internetizada" que tem marcado presença no Forum Social Mundial em Porto Alegre e nas movimentações por uma globalização alternativa. As movimentações em Genebra, Melbourne, Praga, Nice e mais recentemente em Génova e Barcelona têm contribuído para forjar uma cultura de resistência num movimento muito plural, contra os efeitos perversos do neo-liberalismo.
Nos últimos tempos tem crescido uma consciência colectiva mundial de que é preciso lutar contra esta globalização. Um número crescente de pessoas recusa: a ditadura dos mercados, o fanatismo neoliberal, os fundamentalismos, o sexismo nas relações entre as pessoas.
Um maior número de mulheres e homens querem um mundo solidário, justo, livre, sem racismo nem exclusão social, construído na base da igualdade entre mulheres e homens, que valorize o ambiente, o trabalho e uma cidadania activa capaz de colocar as pessoas a decidir sobre os seus próprios destinos. Utopia? Decerto. Mas é por aí que vamos.

Manuela Tavares