Feminismos e Movimentos Sociais em tempos de Globalização
Comunicação no Congresso Luso Afro-Brasileiro, Coimbra 2004
Manuela Tavares, Almerinda Bento, Maria José Magalhães, Cecília Costa

O caso da Marcha Mundial de Mulheres

A globalização, ao exacerbar as desigualdades sociais, mostrou que as mudanças tecnológicas, laborais, culturais, políticas e sociais dos últimos quarenta anos apesar de provocarem evoluções e rupturas reforçaram também continuidades na opressão, subordinação e exploração das mulheres.

Os anos de 1990 são apontados como a década em que os feminismos se globalizaram.
Diversas análises atribuem este processo às Conferências das Nações Unidas sobre os Direitos das Mulheres.
Contudo outros encontros regionais de feministas tiveram lugar nas décadas de 1980 e 1990 fora do enquadramento destas conferências.
É o caso das redes feministas da América Latina.

Em Outubro de 1998 a Federação de Mulheres do Quebec realizou um encontro internacional com mulheres de todos os continentes.
Nasceu assim a Marcha Mundial de Mulheres.

Novo salto qualitativo no feminismo internacional com a MMM ?
Pela primeira vez, de forma autónoma, em relação às instituições, sem ser debaixo do “chapéu de chuva” das Nações Unidas, 100 mil mulheres mobilizam-se em 159 países contra a violência e a pobreza.

Objectivos da Marcha Mundial de Mulheres no ano 2000
  • Agir contra a pobreza e violência exercida sobre as mulheres
  • Promover a igualdade entre mulheres e homens
  • Pressionar governos e instituições internacionais a impulsionar mudanças
  • Assinalar a entrada no novo milénio mostrando a determinação das mulheres em mudarem o mundo
Valores do projecto da MMM:
  • A liderança da organização está nas mãos das mulheres
  • Todas as regiões do mundo partilham a liderança das acções
  • Os grupos participantes que adiram à MMM permanecem autónomos quanto à organização das acções nos seus países
  • Respeito e valorização da diversidade do movimento

Acções realizadas:
  • Desenvolveram-se acções em 159 países que culminaram com uma manifestação em Nova Iorque no dia 17 de Outubro de 2000 onde estiveram 10 mil mulheres.
  • Em cada continente aconteceram realizações semelhantes. Na Europa 30 mil pessoas manifestaram-se em Bruxelas.
  • Em cada país realizaram-se debates, protestos, marchas que mobilizaram milhares de mulheres.Em Portugal, realizou-sem em Lisboa uma manifestação no dia 7 de Outubro.
  • A MMM tem participado em todos os Fóruns Sociais Mundiais.
  • Em Portugal participou no FSP (Junho de 2003) tendo surgido nessa altura a Rede Lilás que tem funcionado como coordenadora portuguesa da MMM.

Vigo- 2004 – Acção da MMM
30 mil mulheres nas ruas de Vigo

Será que a emergência de redes e acções mundiais na área dos feminismos nos conduz a uma ideia de “feminismo global”, reforçando factores identitários homogéneos ou a diversidade e pluralidade de sujeitos e acções marcam os feminismos destes tempos de globalização ?

Que relação se tem estabelecida entre as redes feministas e os movimentos alterglobalização?
Tem sido possível articular agendas ?

Estaremos perante uma nova vaga dos feminismos?

Os feminismos que sempre se caracterizaram por uma dimensão internacionalista não ficaram fora dos movimentos dos fóruns sociais,tendo introduzido temas fundamentais para a reflexão e acção política.

Os movimentos de mulheres introduziram nos fóruns sociais temas fundamentais numa óptica de emancipação.
Não apenas uma óptica de género transversal para interpretar o mundo.
Mas também conceitos como a multiplicidade de sujeitos o que implica a não subordinação de uma contradição em relação às outras.
Nadia De Mond
Representante da Marcha Mundial de Mulheres no Comité Inerernacional dos Fóruns Sociais Mundiais

Importância da participação feminista nos fóruns sociais:

“No FSM ainda há resistências em interpretar o patriarcado como um sistema político e social que sustenta a globalização neoliberal” (Diane Matte – Coord. MMM e da Federação de Mulheres do Quebec)

“Afirmar a agenda feminista ... Questionar padrões centralizadores e patriarcais de desenvolvimento e apresentar alternativas” ( Miriam Nobre e Nalu Faria – SOF/Brasileira)

“Compromisso com as lutas colectivas dos movimentos sociais e transformar a sua perspectiva em relação ao feminismo” ( Virginia Vargas – Rede Articulación Feminista Marcosur)

Participação das mulheres nos fóruns sociais:

  •  FSM – 2001 –mulheres foram 52% dos participantes, MAS a sua presença não foi reflectida nas mesas dos debates.
  • FSM- 2002 – Um dos eixos temáticos principais teve um painel sobre “Cultura da violência – violência doméstica”
  •  FSM – 2003 – Dois dos cinco eixos principais forma organizados pela MMM e pela Articulação Feminista Marcosur
  •  FSM- 2004 – Maior participação de mulheres dos meios mais populares que transbordaram em milhares de iniciativas os espaços das conferências.
  • FSEuropeu – 2003 – Paris – Fórum inicia-se com Assembleia Europeia de Mulheres (mais de 3 mil mulheres)
Uma nova interacção entre os feminismos e os movimentos sociais começa a estar colocada na forma como são construídas as agendas e como se articulam.
Ao colocar-se a ideia de que não existe uma contradição principal à qual todas as outras se subordinam, verifica-se uma articulação entre contradições, o que resulta numa conjugação de agendas, sem priorizar umas em relação às outras.
Esta postura - que às vezes traz conflito - tem sido feita na base da clarificação das diferenças na ideia de que este caminho pode levar a um nível superior de reflexão e acção.

Apesar de uma nova onda de movimentações mundiais de mulheres não nos parece que estejamos perante uma nova vaga dos feminimos.
Existem factores novos, mas a realidade é muito diferente de país para país de região para região.

Novos sectores do feminismo emergem em alguns países – jovens da “next genderation”, jovens imigrantes que nas ruas de Paris marcharam sob o lema “Nem putas, nem submissas” contra as novas formas de opressão das raparigas nas periferias dos grandes centros urbanos, jovens estudantes dos “gender studies” nas universidades, jovens que se mobilizam em torno dos movimentos alterglobalização, ...

Contudo o movimento feminista ainda não envolve amplos sectores de jovens mulheres.
Há sinais, mas são apenas sinais,...

Não estaremos perante um feminismo global.
Os feminismos chegam a este processo global de forma diferente do passado. Não com uma identidade única.
Como afirma Rosi Braidotti, há necessidade de renomear o sujeito feminista como uma entidade múltipla, aberta e em sintonia.

As actuais mobilizações de mulheres a nível mundial levantam a necessidade de reconceptualização das mulheres como grupo social sem o essencializar ou normalizar.

Segundo Iris Young, sem uma conceptualização das mulheres como grupo social a política feminista perde consistência.

Vivemos um tempo em que novos desafios estão criados em termos de pensamento e de acção feminista.