Feminismos e Movimentos Sociais em tempos de Globalização

Manuela Tavares
Almerinda Bento

INTRODUÇÃO

Nas últimas três décadas, as transformações ocorridas no mundo, nos planos económico, social, cultural, político e tecnológico têm assentado num processo crescente de globalização cujo cariz neoliberal tem gerado novas contradições e um acentuar das desigualdades. Associado a este processo surgem novos movimentos sociais mobilizadores de milhares de pessoas em fóruns internacionais. Porto Alegre, Florença, Paris e Mumbai são referências de debates plurais onde os feminismos ganham outras interacções. Redes mundiais como a Marcha Mundial de Mulheres revelam novas formas de intervenção pela diversidade e criatividade de outras gerações de mulheres.

Esta comunicação pretende reflectir sobre esta nova dimensão dos movimentos feministas, à luz de documentação recolhida e do envolvimento directo em reuniões e fóruns internacionais. Será que a emergência de redes e acções mundiais na área dos feminismos nos conduz a uma ideia de "feminismo global", reforçando factores identitários homogéneos, ou a diversidade e a pluralidade de sujeitos e acções marcam os feminismos destes tempos de globalização? Que relação se tem estabelecido entre aquelas redes e os movimentos alterglobalização?

Um dos traços que define a globalização é a politização generalizada da cultura, especialmente nas lutas pela identidade e diferença - as lutas pelo reconhecimento, que explodiram nos últimos anos. A viragem para o reconhecimento representa um alargamento da contestação política. Já não restrita ao eixo da classe, a contestação abarca agora outros eixos de subordinação, incluindo a diferença sexual, a "raça", a etnicidade, a sexualidade,.. (FRASER, 2002).{yootooltip title=[(1)]}1 - FRASER, Nancy, "A justiça social na globalização: redistribuição, reconhecimento e participação", in Revista Crítica das Ciências Sociais, Outubro, 2002, pp.7-20.{/yootooltip} Neste âmbito, que significado poderá ser atribuído ao movimento feminista perante o debate, ainda actual, sobre a relevância ou inutilidade da sua existência, articulado com a emergência de perspectivas teóricas pós-estruturalistas e pós-modernas, que trazendo novos desafios às teorias e práticas feministas, não deixaram de provocar também a possibilidade da sua erosão (MAGALHÃES, 2002)?{yootooltip title=[(2)]}2 - MAGALHÃES, Maria José, "Em torno do conceito de agenda feminista", in Ex Aequo, nº 7, APEM, Celta, 2002, pp. 189-198.{/yootooltip}

A evolução das lutas das mulheres nas últimas duas décadas poderá revelar um certo apagamento dos feminismos, contrastando com as décadas de 1960 e 1970 que foram tempos de um novo impulso dos feminismos como movimento social na Europa e nos Estados Unidos, em contexto de mobilização política e do despertar de outros movimentos por mudanças radicais. A pluralidade expressa em diversas correntes e na multiplicidade dos sujeitos mulheres{yootooltip title=[(3)]}3 - Contributo do feminismo negro e das críticas das mulheres do terceiro mundo ao chamado "feminismo branco".{/yootooltip}, a autonomia e a crítica aos paradigmas tradicionais da ciência foram marcas do feminismo da época. Em Portugal, silenciado, porque incómodo, não assumido por muitas mulheres por receio de marginalização, o termo feminismo não fez parte do vocabulário político das décadas de 1970 e 1980, apesar da conquista da democracia e da intervenção de grupos e associações de mulheres que colocaram na agenda política a despenalização do aborto e da presença, nesses grupos, de mulheres que se assumiram como feministas.

Os anos de 1980 e 1990 tiveram em comum uma menor mobilização das mulheres apenas acalentada pela realização de conferências internacionais sob a égide das Nações Unidas. Nairobi (1985), Viena (1993), Cairo (1994) e, sobretudo, Pequim (1995) foram momentos de reflexão e de tentativa de comprometer governos com plataformas de acção para eliminar discriminações, inserindo-se oficialmente os direitos das mulheres na área dos direitos humanos.

No início do novo século 100 mil mulheres mobilizaram-se em 159 países contra a pobreza e a violência, em torno da Marcha Mundial de Mulheres. Estaremos perante um novo movimento internacional e intergeracional de mulheres? Poderemos falar de uma ligação entre a geração feminista das décadas de 60 e 70 do século passado e as novas gerações de mulheres alterglobalização ?

A comunicação que agora se apresenta procura abrir pistas para uma reflexão futura sobre os feminismos nesta era da globalização e sobre a sua ligação aos movimentos sociais de novo cariz que se desenvolvem hoje no mundo.

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