Homenagem a Carolina Beatriz Ângelo: republicana, feminista e pioneira do voto das mulheres
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Este evento constitui um importante acto político e simbólico no contexto dos percursos emancipatórios feitos pelas mulheres.

 

Carolina Beatriz Ângelo, republicana e feminista, foi a primeira mulher a votar em Portugal e no Sul da Europa em 1911 (na Europa só na Finlândia, desde 1906, e na Noruega, desde 1913, é que existia o sufrágio para as mulheres). Num contexto histórico em que os estereótipos de género se impunham e relegavam as mulheres para a esfera privada, deixando aos homens a esfera pública, o mundo da política, da economia, das artes e do conhecimento, Carolina Beatriz Ângelo, rebelde à ordem patriarcal, constitui-se como sujeito da História. Este acto pioneiro e simbólico de conquista do espaço público ameaçou os papéis tradicionais de género.

A lei eleitoral da altura estabelecia que eram eleitores, todos os cidadãos, chefes de família, que soubessem ler e escrever. Aproveitando o facto do plural masculino, como referente universal, englobar também as pessoas do sexo feminino, característica da linguagem sexista que ainda hoje persiste, Carolina Beatriz Ângelo (médica, viúva e com uma filha), com o apoio das feministas da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, pretendeu a sua inscrição nos cadernos eleitorais para a Assembleia Nacional Constituinte (que aprovaria a primeira Constituição Republicana em Portugal). Porém, não foi permitida a inscrição de Carolina Beatriz Ângelo nos cadernos eleitorais, obrigando-a a recorrer para o Tribunal. Tendo ganho o recurso, recenseou-se e, no dia 28 de Maio de 1911, apresentou-se no Clube Estefânia onde, com o n.º de eleitora 2513 da Freguesia de S. Jorge de Arroios, exerceu o seu direito de voto, acto largamente festejado pelas pessoas presentes entre as quais as feministas republicanas.

Este acto de ousadia também foi saudado por feministas europeias de diferentes organizações e constituiu um factor impulsionador da internacionalização do feminismo português. Disso são testemunhos os telegramas de feministas de outros países recebidos aquando do voto de Carolina Beatriz Ângelo.

Mas, a República, passados que foram os entusiasmos iniciais vividos nas praças e nas ruas, rapidamente se ocupou do regresso das mulheres ao “doce lar”, local de imposição das hierarquias do poder patriarcal, estabelecendo que só poderiam votar “os cidadãos do sexo masculino”.

Recorda-nos o historiador João Esteves que “O desaparecimento precoce [de Carolina Beatriz Ângelo] e os ventos desfavoráveis da História, remeteram-na para o esquecimento, como se fosse possível abafar a republicana conspiradora, a pioneira do voto feminino, que o requereu por respeito à Lei, à Democracia, à Equidade e à Justiça”.

É que este destemido acto, bem como muitos outros, com avanços e recuos, protagonizados por colectivos de mulheres, que desde a primeira década do século XX se bateram pela igualdade de direitos, não são considerados pelo poder hegemónico. Esta invisibilização das mulheres insere-se na longa historiografia do silêncio e do ocultamento que não contempla as mulheres como sujeitos. Contribuir para a construção da memória histórica dos feminismos é visibilizar as mulheres como protagonistas da história. É desvelar o seu pensamento e acção. É quebrar os silêncios impostos e (re)significar os seus percursos. É pôr em causa a hierarquia dos valores em que se baseia o discurso dominante.

Actualmente, os efeitos das políticas neoliberais atingem especialmente as mulheres no desemprego, na precariedade, nos salários, nas pensões, nos cortes e desmantelamento dos serviços e equipamentos públicos, nos horários de trabalho e usos do tempo, no acentuar da vulnerabilidade das mulheres face às diferentes formas de violência, além de reforçarem a cultura discriminatória e sexista associada à ideologia da domesticidade.
Numa sociedade opressora como é a actual, o exemplo de Carolina Beatriz Ângelo constitui fonte de empoderamento para todas nós e para as demais pessoas oprimidas nas lutas contra as múltiplas discriminações.

O facto de a Assembleia da República, órgão de soberania da II República, nascida na Madrugada de 25 de Abril de 1974 e representativa da soberania popular, acolher esta Homenagem da UMAR e Faces de Eva é um acto de justiça à feminista e republicana, conspiradora do 5 de Outubro de 1910, e o assumir do protagonismo das mulheres nas lutas.
 
SOMOS CAROLINAS!
SOMOS PESSOAS!


Manuela Góis