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Depoimentos de Mulheres que abortaram

18 de Outubro de 2005

 

DEPOIMENTO RUTH
Eu tinha 14 anos. Tinha abandonado a escola. Não trabalhava. Engravidei sem querer. Tomava a pílula, às vezes esquecia-me de a tomar. Saía à noite e conheci o meu namorado. Quando menos esperava, engravidei. Fiquei com medo do meu pai vir a saber. Mas a minha mãe não me podia ajudar, não estava cá connosco. Falei com o meu namorado e ele disse para eu fazer o que achasse melhor. Não queria nem podia vir a ter nenhuma criança. Não tínhamos nenhumas condições.
Como não tinha ninguém a quem recorrer, deixei passar tempo e tempo… Não tinha coragem de contar a ninguém.
Um dia, o meu pai começou a desconfiar, ganhei coragem e falei com uma tia minha. Para tirar o feto e ela deu-me o apoio todo. Arranjou-me as pastilhas citotec.
Introduzi 6 na vagina e tomei duas. Só que correu mal. Comecei a ganhar febre, sentia muitas dores. No dia seguinte, estava tão mal que tive que ir ao hospital.
No hospital, como eu era menor, queriam autorização do meu pai para ficar internada. Tive que dizer que não morava com os meus pais, que morava com os meus irmãos. O meu irmão mais velho assinou a autorização para o meu pai não vir a descobrir. Entrei numa terça-feira e na quarta de madrugada tive ainda mais dores. “Bateram-me” as dores e estive toda a noite até às 6h da manhã assim. O feto saiu. Eu estava sozinha, não chamei ninguém com medo. A placenta rebentou. Correu mal.
Queriam fazer a autópsia mas eu não deixei, falei com o meu namorado e ele também não autorizou.
Estive dez dias no hospital. Estive muito mal. Deram-me tantas injecções, cinco ou mais por dia. Já me doía tanto que eles passaram a dar as injecções nas veias. Na análise ao sangue deu que eu tinha uma infecção tipo vírus que provoca o aborto e, se prosseguisse com a gravidez, a criança podia vir com deficiências. E por isso não tive problemas com a polícia. Depois vim para casa. Continuo com a infecção.
Translation:
At that time, I was 14 years old. I had dropped out from school and I didn’t work. I got pregnant without wanting. I took the contraceptive pill but only when I remembered. I went out at night and I met my boyfriend. When I didn’t expected, I got pregnant. I was afraid that my father knew about my pregnancy. But my mother couldn’t help me because, at that time, she was not with us. I spoke with my boyfriend and he said I should do what I thought it was the best. I didn’t want and I couldn’t have a baby. We had no conditions.
As I had nobody to ask for help and I let the time pass. I had no courage no tell anyone.
One day, my father began to be suspicious, I got courage and I spoke to one of my aunts. To take off the foetus and she gave me support. She arranged the cytotec pills. I introduced 6 pills in the vagina and took 2. Only it went on bad. I had fever, and I felt much pain. In the next day, I felt so bad that I had to go to the hospital.
In the hospital, as I was minor, they wanted my father’s permission to stay. I had to say that I didn’t live with my parents, and I lived with my brothers. My oldest brother signed the permission for my father not finding out.
I entered in the hospital on one Tuesday and on Wednesday soon in the morning I had much pain. I was alone, I didn’t call for anyone because I was afraid. The foetus came out. The placenta blew up. It went on badly.
They wanted to make the autopsy but I didn’t let them, I spoke with my boyfriend and he didn’t let them also.
I stayed for 10 days in the hospital. I was very badly. They gave me so many injections, after sometime, it hurted so much that they had to pick me in the blood vessels.
In the blood analysis they saw I had an infection that can provoke abortion and, if I went on with the pregnancy the child could come with handicaps. So I hadn’t problems with the police.
Then I came home. I still have the infection.
DEPOIMENTO CINDA:
Tenho três filhos, trabalho num hospital e sou casada.
Quando o meu filho mais velho tinha 6 meses, fiquei grávida e não podia ter outra criança naquela altura. Vivia com o meu companheiro que é hoje o meu marido mas ainda não estava casada. Ele estava muito doente, tinha fazer hemodiálise e agora já temum transplante. Além disso, não tínhamos dinheiro suficiente para viver e tinha o meu mais velho ainda muito pequenino.
Decidimos os dois que o aborto era a única soluçao para a nossa família.
Fui a um medico famoso no Porto, o Dr. Dantas, mas ele mandou-me ir para uma Clínica em Coimbra onde o aborto podia ser feito. Mas nós não tínhamos condições para ir para Coimbra, por causa da distância e porque tínhamos que ficar de um dia para o outro. Decidimos ir a uma parteira.
Depois do aborto, fui para casa e continuei as minhas actividades do dia-a-dia.
Uma semana mais tarde, mais ou menos 8 dias, senti-me muito mal e tive que ir para o hospital. O aborto não tinha sido completo, só o feto é que tinha saído. Estive três dias no hospital. Fizeram-me a raspagem.
Depois vim para casa e não voltei a ter problemas.
Não estou arrependida, Acho que tomámos a decisão correcta. Se o aborto fosse legal não tinha corrido riscos. Podia ter morrido.
Translation:
I have three children, I’m married and I work in a hospital.
When my oldest son 6 months old I got pregnant and, at that time, I couldn’t have another child. I was not married then, I lived with the man who is now my husband, he was very and we hadn’t money enough for living, any conditions and I had already a child. I and my companion decided abortion was the better solution for my family.
I went to a very famous abortion doctor in Oporto, Dr. Dantas, a very expensive one, but at that time Dr. Dantas he said I had to go to a Clinic in Coimbra, where the abortion could be performed.
But we had no conditions to go to Coimbra, because of the distance and also because we would needed to stay there for one night. So I decided to go to a midwife. After the abortion, I came home and continued with my day-by-day activities. One week later, more or less, I felt very so badly and had to go to the hospital: the abortion had not been complete, and only the foetus has been expelled.
I was very ill in the hospital. I was there three days. They did the curetage.
Then, I came home and I had no more problems.
I think we took the correct decision for our family. If the abortion was legal I would not had so many risks, I could have died.

DEPOIMENTO RUTH

Eu tinha 14 anos. Tinha abandonado a escola. Não trabalhava. Engravidei sem querer. Tomava a pílula, às vezes esquecia-me de a tomar. Saía à noite e conheci o meu namorado. Quando menos esperava, engravidei. Fiquei com medo do meu pai vir a saber. Mas a minha mãe não me podia ajudar, não estava cá connosco. Falei com o meu namorado e ele disse para eu fazer o que achasse melhor. Não queria nem podia vir a ter nenhuma criança. Não tínhamos nenhumas condições. Como não tinha ninguém a quem recorrer, deixei passar tempo e tempo… Não tinha coragem de contar a ninguém.Um dia, o meu pai começou a desconfiar, ganhei coragem e falei com uma tia minha. Para tirar o feto e ela deu-me o apoio todo. Arranjou-me as pastilhas citotec. Introduzi 6 na vagina e tomei duas. Só que correu mal. Comecei a ganhar febre, sentia muitas dores. No dia seguinte, estava tão mal que tive que ir ao hospital.No hospital, como eu era menor, queriam autorização do meu pai para ficar internada. Tive que dizer que não morava com os meus pais, que morava com os meus irmãos. O meu irmão mais velho assinou a autorização para o meu pai não vir a descobrir. Entrei numa terça-feira e na quarta de madrugada tive ainda mais dores. “Bateram-me” as dores e estive toda a noite até às 6h da manhã assim. O feto saiu. Eu estava sozinha, não chamei ninguém com medo. A placenta rebentou. Correu mal. Queriam fazer a autópsia mas eu não deixei, falei com o meu namorado e ele também não autorizou.Estive dez dias no hospital. Estive muito mal. Deram-me tantas injecções, cinco ou mais por dia. Já me doía tanto que eles passaram a dar as injecções nas veias. Na análise ao sangue deu que eu tinha uma infecção tipo vírus que provoca o aborto e, se prosseguisse com a gravidez, a criança podia vir com deficiências. E por isso não tive problemas com a polícia. Depois vim para casa. Continuo com a infecção.

Translation:

At that time, I was 14 years old. I had dropped out from school and I didn’t work. I got pregnant without wanting. I took the contraceptive pill but only when I remembered. I went out at night and I met my boyfriend. When I didn’t expected, I got pregnant. I was afraid that my father knew about my pregnancy. But my mother couldn’t help me because, at that time, she was not with us. I spoke with my boyfriend and he said I should do what I thought it was the best. I didn’t want and I couldn’t have a baby. We had no conditions. As I had nobody to ask for help and I let the time pass. I had no courage no tell anyone. One day, my father began to be suspicious, I got courage and I spoke to one of my aunts. To take off the foetus and she gave me support. She arranged the cytotec pills. I introduced 6 pills in the vagina and took 2. Only it went on bad. I had fever, and I felt much pain. In the next day, I felt so bad that I had to go to the hospital. In the hospital, as I was minor, they wanted my father’s permission to stay. I had to say that I didn’t live with my parents, and I lived with my brothers. My oldest brother signed the permission for my father not finding out. I entered in the hospital on one Tuesday and on Wednesday soon in the morning I had much pain. I was alone, I didn’t call for anyone because I was afraid. The foetus came out. The placenta blew up. It went on badly. They wanted to make the autopsy but I didn’t let them, I spoke with my boyfriend and he didn’t let them also. I stayed for 10 days in the hospital. I was very badly. They gave me so many injections, after sometime, it hurted so much that they had to pick me in the blood vessels. In the blood analysis they saw I had an infection that can provoke abortion and, if I went on with the pregnancy the child could come with handicaps. So I hadn’t problems with the police. Then I came home. I still have the infection.

DEPOIMENTO CINDA:

Tenho três filhos, trabalho num hospital e sou casada. Quando o meu filho mais velho tinha 6 meses, fiquei grávida e não podia ter outra criança naquela altura. Vivia com o meu companheiro que é hoje o meu marido mas ainda não estava casada. Ele estava muito doente, tinha fazer hemodiálise e agora já temum transplante. Além disso, não tínhamos dinheiro suficiente para viver e tinha o meu mais velho ainda muito pequenino. Decidimos os dois que o aborto era a única soluçao para a nossa família.Fui a um medico famoso no Porto, o Dr. Dantas, mas ele mandou-me ir para uma Clínica em Coimbra onde o aborto podia ser feito. Mas nós não tínhamos condições para ir para Coimbra, por causa da distância e porque tínhamos que ficar de um dia para o outro. Decidimos ir a uma parteira. Depois do aborto, fui para casa e continuei as minhas actividades do dia-a-dia. Uma semana mais tarde, mais ou menos 8 dias, senti-me muito mal e tive que ir para o hospital. O aborto não tinha sido completo, só o feto é que tinha saído. Estive três dias no hospital. Fizeram-me a raspagem.Depois vim para casa e não voltei a ter problemas.Não estou arrependida, Acho que tomámos a decisão correcta. Se o aborto fosse legal não tinha corrido riscos. Podia ter morrido.

Translation:

I have three children, I’m married and I work in a hospital. When my oldest son 6 months old I got pregnant and, at that time, I couldn’t have another child. I was not married then, I lived with the man who is now my husband, he was very and we hadn’t money enough for living, any conditions and I had already a child. I and my companion decided abortion was the better solution for my family.I went to a very famous abortion doctor in Oporto, Dr. Dantas, a very expensive one, but at that time Dr. Dantas he said I had to go to a Clinic in Coimbra, where the abortion could be performed. But we had no conditions to go to Coimbra, because of the distance and also because we would needed to stay there for one night. So I decided to go to a midwife. After the abortion, I came home and continued with my day-by-day activities. One week later, more or less, I felt very so badly and had to go to the hospital: the abortion had not been complete, and only the foetus has been expelled. I was very ill in the hospital. I was there three days. They did the curetage. Then, I came home and I had no more problems. I think we took the correct decision for our family. If the abortion was legal I would not had so many risks, I could have died.