Aborto: direito de julgar?
Primeiro, pediram-lhe para ficar de pé,
no meio da sala,
junto de uma cadeira de plástico verde.
E ali ficou à vista de todos, bem iluminada, pelos néons filtrados por panos brancos drapeados como nas tendas de casamento, a dizer em voz estranhamente alta o nome completo, os seus 24 anos, o estado civil - solteira - a morada no bairro social do Cerco do Porto.
Depois deram-lhe autorização para se sentar e começaram com perguntas difíceis de responder.
Devia explicar-se sempre, e sempre com a verdade, avisara a presidente do colectivo do 4º juízo do Tribunal Judicial da Maia. Mas não demorou muito para que as lágrimas lhe aguassem as palavras e os soluços lhe quebrassem as frases.


Rosa Ruela/Ana M. de Carvalho, in Visão, 15/11/2001

17 mulheres têm vindo a ser julgadas no Tribunal da Maia do Porto por terem interrompido uma gravidez que não desejavam.
Independentemente da sentença que venha a ser proferida já ninguém lhes retira meses de intimidação, angústia, de devassidão da sua intimidade.

Nenhuma de nós pode ficar indiferente perante esta afronta ao direito das mulheres poderem decidir da sua maternidade.

Há 23 anos, em Outubro de 1979, no Tribunal da Boa-Hora, em Lisboa, um mesmo tipo de julgamento, da então jovem Conceição Massano e da jornalista Maria Antónia Palla, levou centenas de mulheres a este local.

Este julgamento da Maia recoloca a urgência de alterar a actual lei que criminaliza as mulheres. Deve ser permitido a interrupção de uma gravidez até às 12 semanas, a pedido da mulher, em instituições de saúde públicas. Só assim poderá terminar esta escandalosa humilhação das mulheres, consideradas pela lei actual lei como seres irresponsáveis e menores.

18/1/2002
Boa-Hora

UMAR - União de Mulheres  Alternativa e Resposta
(membro da Plataforma Direito de Optar)
R. de S. Lázaro, 111, 1º - Lisboa - T: 218867096;  F: 218884096