Parar. Para Portugal avançar
9 Outubro | 12h | Estação de metro da Trindade

NÓS PARÁMOS... PARA PODERMOS AVANÇAR.

"Estou capaz de jurar que vi, pelo menos, uma pessoa a sair do metro com a mão na consciência". O tom era jocoso, mas nem por isso a afirmação era menos verdadeira. Se as pessoas que passavam hoje, por volta do meio-dia, na estação de metro da Trindade, no Porto, não saíram com opinião formada acerca do acesso de casais do mesmo sexo ao casamento civil, pelo menos pensaram no assunto. Aproximadamente 30 pessoas estendiam-se pela estação de metro, vindas de Braga, de Aveiro, de Lisboa. Nada de invulgar, num local de passagem. O inusitado era o "congelamento" daquelas pessoas. Como se o tempo simplesmente parasse - como a legislação parada no tempo - chamadas telefónicas pareciam suspensas; o passo interrompido; o olhar preso. Por minutos, a estação estacou perante o congelamento daquelas pessoas. Os pescoços torciam-se admirados; o passo desacelerava para observar aquela gente parada com cartazes na mão; e mesmo os olhares (como os pensamentos) que tentavam escapar à frase que espicaça - "acesso ao casamento civil" - logo embatiam num novo cartaz e a fuga era impossível. Um grupo de estudantes comentava: "não sei se já repararam, mas estamos no meio de uma manifestação pelo casamento homossexual". "Estou capaz de jurar que vi, pelo menos, uma pessoa a sair do metro com a mão na consciência" - a frase ecoa. A comunicação social também compareceu, ainda que em quantidade tímida. Entrevistavam a Maria José Magalhães sobre o intuito da iniciativa quando um fiscal que por ali pairava ameaçou chamar a polícia. Afinal, parece que não é permitido escrever-se uma conversa. O incómodo com a entrevista sublimava o visível incómodo com a acção. Que possa este incómodo ser extensivo aos deputados e deputadas da Assembleia da República. E que amanhã, no momento da votação dos projectos de lei que aprovam o casamento entre pessoas do mesmo sexo, possam esses deputados e deputadas cadenciar, em consciência e sem qualquer disciplina de voto a deter o movimento, a marcha rumo à igualdade e cidadania plena.
O Porto parou. E agora, senhores deputados e deputadas, podemos avançar?
Escrito por Salomé Coelho

NOTA DE IMPRENSA:

Dia 9, às 12h na Estação da Trindade, no Porto: “Parar. Para Portugal Avançar”
Durante o Estado Novo, as professoras primárias necessitavam da autorização do Estado para casar. Durante o Estado Novo, as enfermeiras eram, legalmente, impedidas de casar, chegando mesmo uma enfermeira a ser presa por infringir esta lei. Em 2008, o Código Civil português não impede enfermeiras ou professoras de casar, mas continua a não permitir o casamento de pessoas do mesmo sexo, ainda que o artigo 13º da Constituição da República Portuguesa consagre a eliminação da discriminação em função da orientação sexual. Em 2008, apesar da inexistência de prisões reais, lésbicas e gays continuam a ser prisioneiros simbólicos de uma mentalidade retrógrada e discriminatória.  
No próximo dia 10 de Outubro, a Assembleia da República tem oportunidade de assumir as suas responsabilidades e aprovar os projectos de lei que prevêem a alteração do Código Civil no que se refere ao acesso ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. As deputadas e deputados portugueses terão oportunidade de, através do seu voto, mostrar que têm dos direitos fundamentais, da cidadania e da democracia uma visão que não discrimina ninguém, que não exclui cidadãos e cidadãs do exercício e do direito à felicidade.  
A UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta associa-se e apoia a luta das organizações portuguesas, no sentido de verem reconhecido o direito ao casamento civil para todas as cidadãs e cidadãos, independentemente da sua orientação sexual. Por isso, no próximo dia 9 de Outubro, a UMAR dinamiza uma performance na Estação de Metro da Trindade, Porto, pelas 12h. Como se fossem reflexo ou espelho da legislação portuguesa - estagnada - os e as participantes desta acção vão literalmente parar e manifestar, imóveis, que este é o momento de avançar. Porque todas as vidas são prioritárias, porque motivos de "agenda política" não podem ser justificações para discriminar, porque as leis servem para proteger da discriminação e não quem exerce essa discriminação, dia 9 de Outubro as palavras de ordem são "PARAR, PARA PORTUGAL AVANÇAR".
Jornal Sol


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